Amatéria-prima do plástico, durante décadas feito apenas a partir do petróleo, está se diversificando de modo impressionante. Agora ele pode ser feito à base de farinha de madeira, bagaço de cana-de-açúcar, sementes de açaí ou de manga, amido de mandioca e resíduos de alimentos – e não apenas nas quantidades comedidas típicas dos laboratórios de pesquisa. No início de dezembro de 2025, o tecnólogo Durval Valente Lopes inclinou uma bandeja branca e despejou uma porção generosa de grãos parecidos com ração para pets sobre o funil de uma das máquinas instaladas em um amplo galpão da unidade do Serviço Nacional da Indústria (Senai) em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.
A máquina – uma injetora de plásticos com 5 metros de comprimento – incorporou sem nenhum ruído os pellets e os prensou entre as duas partes de um molde. Em segundos, o molde se abriu e deixou cair um disco com 20 colheres pequenas e amarronzadas. Lopes retirou o disco, que saiu como deveria, e o depositou sobre uma bancada próxima. “Estamos ainda aprendendo a trabalhar com esse material”, ele comenta, enquanto recarrega a máquina. “Por ter farinha de madeira, uma fibra vegetal, às vezes adere um pouco no molde e tenho de passar um óleo desmoldante.”
Instrutor de um curso de plásticos do Senai durante 23 anos e há quatro na equipe de pesquisa, Lopes participou do projeto e confecção dos moldes anteriores, inicialmente capazes de fazer apenas uma ou duas colheres, e participou do aprimoramento desse material, reformulado até que se ajustasse a máquinas do mesmo porte das usadas para produção em escala industrial. “No início, a massa não preenchia as cavidades dos moldes ou a peça quebrava”, conta a química Irina Factori, responsável pelo grupo de pesquisa. “Desde agosto de 2024, fizemos dezenas de mudanças na fórmula e no molde.”

Farinha de madeiraLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP
“Antes, com o Senai de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, já havíamos testado umas 300 formulações para desenvolver bioplásticos flexíveis. Agregamos bagaço de cana-de-açúcar e outros materiais, até vermos que a farinha de madeira era a mais adequada”, comenta a administradora de empresas Luisa Vendruscolo, da Biopolix. À frente da empresa criada em 2016 em Ribeirão Preto, no interior paulista, ela trabalhou com a equipe do Senai de São Bernardo do Campo para fazer com que o material pudesse ser produzido e usado em quantidades maiores.
Quando chegou lá, o volume máximo de cada lote de produção era de 40 gramas (g) de um material marrom translúcido e pouco consistente. Os primeiros ajustes na formulação permitiram a confecção de lotes de 100 g. Agora, a máquina atrás de Lopes, uma extrusora, usando pressão e calor, pode misturar por vez até 10 quilos (kg) de polímeros obtidos por fermentação bacteriana com os ingredientes necessários para formar um bioplástico biodegradável, à base de resíduos vegetais. Pouco a pouco, esse tipo de material, por se decompor em até seis meses se descartado no lixo orgânico comum, substituirá o plástico tradicional.
Com esses saltos, a Biopolix ingressa no grupo de pequenas empresas de base tecnológica que ampliam a produção desse material de decomposição relativamente rápida. Os talheres, copos e embalagens feitos com plásticos de açaí ou de mandioca usados em sorveterias e deliveries do país inteiro reforçam a ideia de que os também chamados bioplásticos, se forem produzidos a custos menores e em quantidades maiores, poderiam ser ainda utilizados na confecção de sacolas em geral e peças plásticas. Desse modo, poderiam substituir boa parte dos plásticos tradicionais, cuja decomposição se prolonga de 10 anos (sacolas plásticas) a 600 anos (garrafas de plástico rígido).




