Moda acelera sua virada sustentável com novos couros, peles e materiais inovadores
A relação da moda com o meio ambiente é profunda — e preocupante. Ao mesmo tempo, tem se tornado um dos grandes focos de transformação para startups e empresas que apostam em tecnologia, inovação e novos modelos produtivos.
Hoje, o setor responde por cerca de 8,3 milhões de toneladas de metano por ano, quase quatro vezes mais do que países como a França. Mantido o ritmo atual, a indústria deve ultrapassar em 50% as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.
Grande parte desse impacto vem do uso de materiais de origem animal. Couro, cashmere e lã são responsáveis por cerca de 75% da pegada de metano da moda. O couro, sozinho, representa mais da metade desse total: quando produzido a partir de bovinos, gera cerca de 110 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado.
Alternativas sintéticas à base de plástico reduzem significativamente essas emissões — para algo em torno de 15,8 kg de CO₂e por metro quadrado —, mas trazem outros problemas sérios. O plástico é derivado do petróleo, responde por aproximadamente 3,4% das emissões globais e pode levar de 20 a 500 anos para se decompor. Além disso, materiais sintéticos liberam microplásticos tóxicos, que contaminam rios, oceanos e cadeias alimentares.
No caso das peles animais, o cenário é igualmente crítico. A produção envolve grandes fazendas industriais, consumo excessivo de água e energia, altas emissões de gases de efeito estufa e práticas amplamente questionadas do ponto de vista ético. Não por acaso, alguns países europeus já consideram enganoso rotular esse material como sustentável, e semanas de moda importantes, como as de Londres e Nova York, baniram seu uso.
Diante desse contexto, cresce o número de empresas dedicadas a desenvolver materiais inovadores, livres de animais e de plástico. Em 2026, esse movimento ganha ainda mais força, impulsionado por novos investimentos, parcerias estratégicas e lançamentos comerciais.
Couro à base de grãos da Uncaged Innovations chega a novas marcas
Pouco depois de anunciar a atriz Natalie Portman como parceira estratégica, a startup norte-americana Uncaged Innovations apresentou os primeiros resultados de colaborações com cinco marcas independentes de diferentes países.
Seu material, chamado Elevate, é produzido a partir de proteínas extraídas de subprodutos agrícolas como trigo, soja e milho. Em comparação ao couro animal, ele emite 95% menos gases de efeito estufa, consome 89% menos água e 71% menos energia. A solução já está presente, inclusive, no interior de veículos da Hyundai e da Jaguar Land Rover.
Agora, o Elevate passa a integrar pulseiras de relógios analógicos e Apple Watch da britânica Watch and Strap, a carteira Soho Wallet da designer nova-iorquina Kaila Katherine e bolsas assinadas pela marca alemã Melina Bucher, como os modelos Tessa e Nubian.
No Canadá, a Via Gallo lançou a coleção Avellino, que inclui a clutch conversível Andretta e a bolsa geométrica Bisaccia, ambas feitas com o material da Uncaged. Já na Espanha, a Loué Studio apresentou a bolsa Mano Pochette, também produzida com o Elevate.
Essas marcas fazem parte do The Collective, iniciativa criada pela Uncaged Innovations para democratizar o acesso a materiais de nova geração além das grandes maisons. Novos integrantes do grupo — como Stow, Marco Dal Maso, Ittara e Humo — devem apresentar lançamentos com o couro vegetal ainda neste semestre.
BioFluff leva pele vegetal ao mercado chinês
A startup parisiense BioFluff, especializada em alternativas sustentáveis para peles, shearling e materiais felpudos, conquistou uma parceria estratégica com o grupo chinês JNBY.
A empresa asiática utilizará a pele vegetal Savian Naturals na coleção primavera-verão 2026 de sua linha masculina de luxo Croquis. A peça-chave será uma jaqueta sem mangas em tons de cinza e preto, produzida integralmente com o material da BioFluff, à venda tanto online quanto em lojas físicas na China.
Fundado em 1994, o JNBY Group opera mais de 2.100 lojas na China continental, Hong Kong, Macau e Taiwan, além de presença na Austrália e em países do Sudeste Asiático — o que torna a parceria um marco importante para a startup europeia.
A BioFluff utiliza fibras vegetais 100% renováveis e resíduos agrícolas para transformar plantas como urtiga, cânhamo e linho em uma pele totalmente biodegradável e livre de animais, com redução de emissões entre 40% e 90%.
Segundo Luke Henning, CEO interino da empresa, o foco agora é a escala comercial. “Superamos a fase de testes e passamos a trabalhar diretamente com equipes de sustentabilidade, compradores e designers em lançamentos reais. Nosso diferencial é integrar a inovação sem interferir nos modelos de negócio das marcas.”
Para 2026, a empresa também aposta no segmento de brinquedos de pelúcia, iniciado com uma colaboração com a marca lituana Balsais, que lançou uma linha de casacos de inverno sem qualquer uso de pele animal.
Natural Fiber Welding retorna com novos investidores
Referência no desenvolvimento de materiais ecológicos, a norte-americana Natural Fiber Welding (NFW) cria couro, espumas, tecidos e solados totalmente livres de plástico. Sua tecnologia reforça fibras naturais por meio de processos químicos de ciclo fechado, resultando em materiais de alta performance.
Entre suas inovações estão o Mirum, alternativa vegetal ao couro; o Pliant, solado de borracha natural; o Clarus, tecido técnico de alta precisão; e o Tunera, uma espuma sem plástico. Os materiais utilizam ingredientes como borracha natural, casca de coco, palha de arroz, óleos vegetais, algodão, minerais e pó de cortiça.
Finalista do Earthshot Prize em 2024, a NFW já colaborou com marcas como Stella McCartney, Patagonia, BMW e Ralph Lauren — estas duas últimas também figuram entre seus investidores. Desde 2015, a empresa captou US$ 136,5 milhões, com apoio de nomes como Allbirds e Asahi Kasei.
Apesar desse histórico, a NFW enfrentou dificuldades e iniciou um processo de redução de operações em 2025. A reviravolta veio agora, com um investimento conjunto da Provest Equity Partners e da CTW Venture Partners, voltado à retomada da escala produtiva e da comercialização.
A empresa anunciou um novo foco em eficiência operacional, inovação de produtos e geração de valor no longo prazo, com atenção especial às linhas Mirum e Pliant. “Essa parceria representa um ponto de virada para a NFW e reforça nossa missão de levar materiais sustentáveis e de alto desempenho ao mercado”, afirma o CEO Steve Zika.
Com o retorno da Natural Fiber Welding, a entrada da BioFluff no mercado chinês e as novas colaborações da Uncaged Innovations, a moda sustentável começa 2026 em ritmo acelerado. O desafio agora é manter esse impulso — e transformar inovação em padrão.