Qual a importância do Pantanal para as espécies migratórias?
No coração da América do Sul, o Pantanal é uma das maiores e mais importantes áreas úmidas de água doce do mundo. Devido a sua localização estratégica, diversas espécies que estão migrando e, em sua rota, passam pelo Brasil, utilizam o bioma como parada de descanso, alimentação e reprodução.
A migração de espécies é o deslocamento em massa de animais entre diferentes regiões, podendo ocorrer de forma temporária ou permanente, geralmente motivado pela busca por melhores condições de sobrevivência, como alimento e clima. Segundo a Convention on the Conservation of Migratory Species (CMS), espécies migratórias são aquelas cujas populações, ou partes delas, atravessam fronteiras internacionais de forma significativa. Esse fenômeno é comum especialmente em resposta a variações sazonais, como os invernos rigorosos do hemisfério norte, que levam diversas espécies a migrarem para o hemisfério sul como, por exemplo, a águia-pescadora e o falcão-peregrino.
As mudanças climáticas e alterações no uso do solo, além da degradação de habitat, afetam negativamente as espécies migratórias, principalmente no Pantanal, onde a dinâmica destas espécies estão relacionadas ao pulso de inundação, que está se tornando cada vez mais curto, de acordo com pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP).
Características do bioma são favoráveis à função como ponto de parada
O Pantanal funciona como uma importante área de parada e permanência para diversas espécies migratórias, oferecendo habitats durante seus deslocamentos entre os hemisférios norte e sul. As aves neárticas, por exemplo, reproduzem-se no hemisfério norte e migram para o Pantanal durante os períodos de inverno mais rigorosos.
A dinâmica hídrica do Pantanal, regido pelo pulso de inundação, alternando cheias e secas, é o local perfeito para abundância de recursos alimentares, formando um verdadeiro oásis para diversas espécies migratórias em busca de alimentos e segurança
De acordo com levantamentos da Embrapa Pantanal, cerca de 190 espécies de aves seguem a rota de migração, passando pelo Pantanal para chegarem ao sul do continente, em direção à Patagônia (Argentina e Chile), que é o maior ponto de concentração das espécies que vem do Hemisfério Norte.
Além das aves, o bioma é importante para peixes migratórios de água doce, cujos ciclos reprodutivos dependem da livre circulação pelos rios da Bacia do Alto Paraguai, e para mamíferos que utilizam corredores ripários e áreas inundáveis em seus deslocamentos sazonais, como mostram estudos da Embrapa Pantanal e WWF.
Conheça algumas espécies migratórias encontradas no Pantanal
Tuiuiú (Jabiru mycteria)
Popularmente o tuiuiú é chamado de migratório porque se desloca conforme o ciclo hidrológico do Pantanal, mas tecnicamente a espécie é classificada como residente com dispersão sazonal. Isso tem consequência direta: ela não se enquadra nos critérios da CMS para listagem como espécie migratória, o que significa que a COP15 não vai tratá-la especificamente nesse enquadramento.
Ele é encontrado sazonalmente no Pantanal, entre abril e dezembro, movendo-se de acordo com o ciclo das águas para encontrar áreas com alimentos mais abundantes (peixes, anfíbios, moluscos) (Antas 1996). Após a reprodução ou durante a seca, eles podem se dispersar para outras áreas úmidas, incluindo a Amazônia, áreas do Chaco, e, ocasionalmente, para o noroeste de São Paulo (Antas 1996 e WikiAves).
Os tuiuiús fazem uma migração local, ou seja, se deslocam principalmente dentro do próprio bioma, entre os 11 “Pantanais”, sempre retornando aos mesmos locais em que construíram o primeiro ninho para reproduzirem-se novamente. No entanto, muitas populações são residentes do Pantanal, migrando apenas localmente, conforme a disponibilidade de alimento.
Foto: Andreas Trepte CC BY-SA 4.0 Wikimedia Commons
Maçarico-de-colete (Calidris melanotos)
Esta espécie de maçarico migra do Hemisfério Norte (ocorre na Península de Taymyr, na Sibéria, Alasca e em toda a região ártica canadense até o oeste da Baía Hudson), onde se reproduz, para as áreas de invernada na América do Sul, que se estende por todo o Pantanal (WWF 2008). Esta ave prefere as áreas de baías e salinas.
Foto: TRinaud, CC BY 4.0 Wikimedia Commons
Águia-Pescadora (Pandion haliaetus)
Esta emblemática águia se desloca do Hemisfério Norte, podendo ser vista no Brasil entre os meses de outubro e abril. Sua dieta é composta basicamente por peixes, capturados através de mergulhos próximos à superfície da água, com suas garras.
A águia-pescadora faz seus ninhos no hemisfério norte e retornam por muitos anos na estação reprodutiva para a postura dos ovos. Após este período, migram para a América do Sul e Central em percursos que duram de 20 a 30 dias. Os sítios de invernagem ficam entre 5 e 15 mil quilômetros de distância da área reprodutiva.
Foto: Gustavo Figueirôa
Gavião-tesoura (Elanoides forficatus)
O gavião-tesoura é um exemplo de espécie migratória dentro do território nacional. De acordo com Menq (2017), de abril a julho, a espécie está concentrada na região amazônica e entre julho e agosto começam a migrar para a Mata Atlântica, fazendo paradas no centro-oeste (Pantanal), chegando ao seu destino de migração em setembro. Então, iniciam o período reprodutivo na Mata Atlântica.
Foto: Andy Morffew, CC BY 2.0, Wikimedia Commons
Migração de peixes no Pantanal
Diversas espécies de peixes migram longas distâncias nos rios do Pantanal. Esta migração é conhecida como piracema, quando espécies sobem os rios contra a correnteza em busca de águas com mais disponibilidade de oxigênio para reprodução.
O Pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e o Dourado (Salminus brasiliensis) são espécies migratórias-chave para o Pantanal, inclusive havendo proteções sobre eles. Outras espécies conhecidas, que fazem esta migração, são a cachara, piauçu, jaú, pacu.
Você já sabia que a localização geográfica do bioma o transforma em um ponto de parada nas rotas migratórias de espécies de peixes, aves e mamíferos na América do Sul? Veja este vídeo e entenda a importância surpreendente do Pantanal!