Maria Muniz e Maria Aparecida são donas de casa. Juntas, cuidam de uma área verde em frente onde moram, cerca de 10 km do centro da cidade de Piracicaba. Cultivam mais de 30 espécies de plantas, entre comestíveis, aromáticas e medicinais como guaco, ora-pro-nóbis e melissa. Entre pés de graviola, limão, manga, mamão, além de bananeiras e goiabeiras, passam o dia cuidando das árvores, da horta e de canteiros de plantas ornamentais. “Eu morava em São Paulo e nunca havia colocado as mãos na terra”, conta Maria Aparecida, enquanto rega suas suculentas.
A vizinha, Maria Muniz, já viveu na roça, no sul de Minas Gerais. “Meu marido era agrônomo, eu sempre gostei de lidar com plantas e hoje passo boa parte do meu dia por aqui.” Além de consumo próprio, ambas compartilham os frutos da colheita com a vizinhança e podem ser classificadas com o perfil de forrageadoras, pessoas que exploram recursos alimentares. Na prática, elas ainda reconstroem uma relação com o ambiente urbano a partir do contato com a natureza e com alimentos cultivados de forma orgânica.
Para Ribas, o estudo aponta caminhos para a formulação de políticas públicas que incorporem o forrageamento urbano no planejamento das florestas urbanas sem deixar de lado os desafios. Entre eles estão a falta de informação sobre espécies comestíveis e a necessidade de um plantio mais criterioso. “A educação ambiental é fundamental”, defende. “É preciso ensinar a população a reconhecer quais espécies podem ser usadas de forma segura e planejar o espaço urbano para que essas plantas estejam disponíveis sem gerar riscos.”
O pesquisador acredita que “as gerações mais antigas carregam um conhecimento que está se perdendo nas cidades”, disse ao site Viletim.
O trabalho teve apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), além de atender às demandas da FAO e da OMS sobre resiliência urbana.
“Vivemos em um país majoritariamente urbano, e nosso estudo propõe pensar em como as árvores e plantas das cidades podem nos ajudar a lidar com adversidades climáticas e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso à alimentação é extremamente relevante”, afirma Ribas.
A tese Forrageamento urbano: perspectivas para políticas públicas brasileiras foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Ciências Florestais da Esalq.
Mais informações: [email protected], com Demóstenes Ferreira Silva Filho, ou no site do Laboratório de Silvicultura Urbana
*Da Assessoria de Comunicação da Esalq, adaptado por Júlio Bernardes