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E se os animais se curarem por instinto?

E se os animais se curarem por instinto?
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Fotografia: Morgan Newnham/Unsplash

Nas instalações de uma das maiores universidades da Cidade do México, os tentilhões (Haemorhous mexicanus) recolhem beatas de cigarro para desinfectar os seus ninhos. Os pequenos pássaros aprenderam a usar o efeito repelente da nicotina para combater carraças.

O comportamento, estudado por duas investigadoras da universidade, é um exemplo de medicação animal, um fenómeno que desde há quatro décadas vem chamando a atenção dos cientistas. A hipótese de que os animais se poderiam curar a si próprios, demonstrada cientificamente pela primeira vez nos anos 1980 por um primatologista americano, foi vista “como muito controversa” durante muito tempo, lembra o biólogo Jaap de Roode, da Universidade Emery, em Atlanta, nos Estados Unidos da América: “Muitos cientistas pensavam que os animais não eram suficientemente inteligentes. Como é que poderiam fazer algo do género?”. A resposta é simples: “Não necessitam de saber”, explica o biólogo, que publica na quarta-feira, em França, a obra ‘Os nossos melhores médicos: como as formigas, as borboletas, os elefantes se curam a si próprios há milhões de anos’ (em tradução livre). De Roode cita como exemplo a minúscula traça-tigre-isabella (Pyrrharctia isabella). Quando está infestada por larvas de mosca, a lagarta, de aspecto felpudo, começa a consumir plantas que contêm alcaloides, um veneno mortal para os seus parasitas. A traça possui receptores gustativos que respondem mais intensamente aos alcaloides quando está infestada: “O animal não precisa saber que está doente, nem o que são os alcaloides ou que comê-los vai ajudar a melhorar a sua condição. O seu corpo diz-lhe simplesmente ‘Continua, come mais’”, detalha o investigador. É um comportamento “inato”, inscrito nos seus genes e fruto da evolução. Outros comportamentos são apreendidos por associação. Assim como “aprendemos com as nossas experiências”, por exemplo evitando instintivamente certo tipo de alimento que nos provocou uma intoxicação, os animais vão lembrar-se de se terem sentido melhor após consumirem uma planta específica e voltarão a comê-la quando tiverem um sintoma similar. Em espécies sociais, como os chimpanzés, estes comportamentos podem ficar, em parte, a dever-se à imitação: “Um indivíduo encontra um método e os demais copiam-no”, acrescenta De Roode.

Aprender mais sobre a forma como os animais se curam a si mesmos “tem muitos benefícios” para os humanos, argumenta o biólogo. Entre outros benefícios, pode ajudar a indústria farmacêutica moderna a produzir medicamentos e tratamentos, como fizeram investigadores japoneses que, ao observar gatos a esfregarem-se em erva-gateira (Nepeta cataria), descobriram que esta planta aromática continha um composto químico que os protege dos mosquitos.

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Trajano Xavier

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