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Genoma da preguiça-de-dois-dedos revela genética única entre mamíferos

Genoma da preguiça-de-dois-dedos revela genética única entre mamíferos
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Pesquisadores brasileiros identificam a maior carga de retrocópias já descrita em um mamífero na preguiça-de-dois-dedos e encontram pistas de que essas duplicações contribuíram para adaptações metabólicas únicas do animal.

Preguiça-de-dois-dedos se segurando no topo das árvores.
Preguiça-de-dois-dedos se segurando no topo das árvores.

O genoma da preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus) guardava um recorde que só agora veio à tona: com milhares de retrocópias, ela exibe a maior quantidade dessas duplicações gênicas já registrada entre todos os mamíferos estudados.

As retrocópias são como rascunhos genéticos, fragmentos de genes que, por meio de um atalho molecular, voltam a se instalar no DNA. Na maioria das vezes, são sequências inertes. Mas quando encontram um contexto favorável, podem se transformar em novidades funcionais que a evolução aproveita.

Uma equipe internacional com participação decisiva de cientistas brasileiros sequenciou e comparou os genomas da preguiça-de-dois-dedos e do tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), ambos representantes do superordem Xenarthra, o único grupo de mamíferos placentários que surgiu na América do Sul, há mais de 60 milhões de anos.

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Além de constatarem o número recorde de retrocópias, os pesquisadores encontraram sinais de que muitas delas estão ativas nos tecidos das preguiças e que algumas foram “domesticadas” pelo genoma, adquirindo funções ligadas ao metabolismo.

O trabalho foi publicado na revista BMC Biology em 19 de maio de 2026 (volume 24, artigo 137) e tem como primeira autora Marcela Uliano-Silva, ao lado de Helena Beatriz da Conceição, Rafael L. V. Mercuri, Pedro A. F. Galante, Camila J. Mazzoni e outros colaboradores do Brasil e do exterior.

O que são retrocópias? Por que a preguiça tem tantas?

No fluxo tradicional da informação genética, o DNA é transcrito em RNA mensageiro, que depois serve de molde para a produção de proteínas. As retrocópias surgem quando esse RNA mensageiro, em vez de cumprir sua rota, é “sequestrado” por uma enzima chamada transcriptase reversa, fornecida, muitas vezes, por elementos saltadores conhecidos como LINE1.

O resultado é uma cópia do gene original reinserida em outro ponto do genoma. Como essa réplica perde as regiões regulatórias que controlavam sua expressão, ela costuma ser silenciosa: um “gene fóssil” instantâneo.

Porém, um pequeno percentual dessas cópias pode, por acaso, cair próximo a sequências reguladoras ativas e começar a ser transcrito. Quando a seleção natural preserva essa cópia e ela assume uma função nova ou complementa a original, os cientistas falam em “domesticação” da retrocópia. É aí que o genoma da preguiça se destaca: ele não só acumulou mais retrocópias do que qualquer outro mamífero examinado, como manteve um contingente desproporcional de cópias jovens e aparentemente ativas.

Um recorde escondido no DNA de Xenarthra

Para dimensionar o fenômeno, os autores analisaram os genomas de três espécies-chave: a preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), cujo genoma já era conhecido. Em todos eles, a carga de retrocópias se mostrou excepcionalmente alta em comparação com os demais mamíferos. Mas as diferenças entre as espécies foram ainda mais reveladoras.

Tatus e tamanduás apresentam um repertório mais envelhecido de elementos LINE1 — os motores da retrotransposição — e, em consequência, suas retrocópias também são mais antigas. Já as preguiças preservam um grande número de LINE1s jovens e milhares de retrocópias igualmente recentes. Além disso, uma fatia considerável dessas cópias surgiu em um único pulso evolutivo, datado de aproximadamente 30 milhões de anos atrás, no ramo que conduziu ao ancestral comum das preguiças atuais. Essa explosão de duplicações parece ter sido um evento marcante na história do grupo.

Preguiças jovens, cópias jovens

O contraste temporal é uma das assinaturas mais nítidas do estudo. Enquanto as retrocópias encontradas em tatus e tamanduás se acumularam ao longo de dezenas de milhões de anos de forma mais espaçada, as preguiças concentram uma parcela significativa de eventos de retroduplicação em um intervalo evolutivamente curto. Isso sugere que, no ancestral das preguiças, houve uma janela de intensa atividade de retrotransposição que deixou marcas profundas no genoma.

O achado dialoga com a biologia peculiar desses animais. Preguiças têm taxas metabólicas basais muito baixas, temperatura corporal variável e uma fisiologia que desafia o padrão dos mamíferos

Foto: Mario Spencer no Pexels

Fontes adicionais:

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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Trajano Xavier

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