Startup apoiada pela Mondelēz apresenta manteiga de cacau cultivada em células
A Celleste Bio, startup israelense apoiada pela gigante Mondelēz International – dona de marcas como Cadbury e Oreo –, acaba de apresentar uma inovação inédita que pode redefinir o futuro da produção de chocolate: uma manteiga de cacau cultivada em laboratório a partir de células vegetais.
A novidade foi revelada durante o Next Bite Summit, evento promovido pela EIT Food em Bruxelas, e promete ser uma solução concreta para a crise de oferta de cacau, cada vez mais agravada pelas mudanças climáticas.
Com sede em Tel Aviv, a Celleste Bio utiliza tecnologia de cultivo celular para produzir manteiga de cacau idêntica à tradicional, mas sem depender de plantações extensas nem das condições climáticas. O processo parte de células reais de cacau cultivadas em biorreatores, com a adição de vitaminas, minerais, açúcares e água. O resultado é uma manteiga de cacau pura, indistinguível da obtida a partir do fruto.
De acordo com a CEO Michal Berresi Golomb, basta uma ou duas sementes para gerar a mesma quantidade de manteiga que normalmente exigiria quatro toneladas de cacau e 10 mil m² de terra. “Nosso trabalho mostra como a ciência pode reproduzir os ingredientes da natureza com total integridade e transparência”, afirma a executiva.
Uma resposta ao colapso da cadeia global do cacau
O setor do chocolate vive um momento crítico. Secas prolongadas, chuvas intensas e o avanço das doenças nas lavouras têm reduzido drasticamente a produtividade na África Ocidental — região responsável por mais de 60% da produção mundial. Cientistas alertam que até um terço dos cacaueiros pode desaparecer até 2050, o que já vem pressionando os preços do cacau a níveis recordes.
Além disso, a própria cadeia do chocolate é uma das que mais contribuem para as emissões de gases de efeito estufa, perdendo apenas para a carne bovina em impacto climático, e também está ligada ao desmatamento e ao desperdício de alimentos.
Como funciona o processo da Celleste Bio
Fundada em 2022 por Hanne Volpin, Orna Harel, Avishay Levy e Daphna Michaeli, com o apoio do grupo Trendlines, a Celleste Bio combina agrotecnologia, biotecnologia e inteligência artificial para desenvolver ingredientes de cacau cultivados em células.
O processo começa com a seleção de diferentes variedades de grãos. As células do cacau são então extraídas e cultivadas em biorreatores — semelhantes a tanques de fermentação de cerveja ou vinho —, onde crescem em um ambiente controlado e otimizado para qualidade e consistência.
Um diferencial importante é que as células continuam se multiplicando mesmo após a extração da biomassa, permitindo a produção contínua sem a necessidade de novos frutos ou derrubada de árvores.
Segundo a empresa, apenas em ingredientes derivados do cacau a indústria do chocolate movimenta cerca de US$ 16 bilhões por ano, sendo a manteiga de cacau responsável por quase metade desse valor.
Tecnologia como seguro contra a crise do cacau
Para Howard Yano Shapiro, ex-diretor agrícola da Mars, o avanço de tecnologias como a da Celleste Bio representa uma espécie de “seguro” diante da instabilidade da cadeia produtiva. “Não substitui a agricultura tradicional, mas garante resiliência e previsibilidade em um setor que enfrenta uma crise de longo prazo”, observa.
A manteiga de cacau da Celleste Bio é quimicamente e funcionalmente idêntica à convencional, com o mesmo perfil de ácidos graxos e características sensoriais — como o ponto de fusão, a textura aveludada e o famoso “snap” de um chocolate de alta qualidade.
Além disso, o processo não gera resíduos e utiliza todos os insumos de forma eficiente, eliminando desperdícios e limitações agrícolas.
Próximos passos: expansão e aprovação regulatória
A startup está finalizando sua planta-piloto, que terá capacidade para produzir até 1.000 litros por ciclo de fermentação. A expectativa é de que o produto chegue ao mercado em 2027, após aprovação regulatória nos Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Israel.
Com US$ 5,6 milhões em investimentos captados até agora, sendo US$ 4,5 milhões na rodada mais recente, a Celleste Bio conta com o apoio estratégico da Mondelēz, que atua como parceira no desenvolvimento e aproximação do mercado. A empresa também negocia com diversos fabricantes de chocolate interessados em soluções sustentáveis para a cadeia do cacau.
A questão do preço será decisiva. Segundo Berresi Golomb, o objetivo é que o ingrediente mantenha paridade com os valores atuais do cacau — ou seja, seja competitivo e, idealmente, mais econômico em períodos de alta do preço da matéria-prima. A empresa planeja oferecer duas linhas: uma versão de substituição direta (drop-in) e outra premium, voltada ao mercado de chocolates de alto valor agregado.
Um novo capítulo para o chocolate sustentável
A Celleste Bio integra um movimento crescente de empresas que buscam reinventar o cacau por meio da biotecnologia. Outras iniciativas incluem a California Cultured, que já fornece pó de cacau celular à gigante japonesa Meiji, e a Kokomodo, startup israelense recentemente adquirida pela Pluri. Na Europa, empresas como Food Brewer (Suíça) e Fazer (Finlândia) também estão explorando caminhos semelhantes.
Se bem-sucedida, a tecnologia da Celleste Bio pode marcar o início de uma nova era para o chocolate — uma em que a indulgência e a sustentabilidade finalmente caminham lado a lado.