A salamandra-de-fogo brilha sob luz UV — e a pista está no sangue
A salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) é um dos anfíbios mais conhecidos da Europa. Suas manchas amarelas sobre o corpo preto são estudadas há mais de dois séculos e estampam livros de biologia. Por isso é surpreendente que algo tão básico tenha passado despercebido até agora: sob luz ultravioleta, ela brilha. E não é um detalhe sutil, é um brilho turquesa, vindo principalmente da barriga e das laterais do corpo.
A descoberta foi publicada em 27 de maio de 2026 na revista Royal Society Open Science por uma equipe do Museu de Ciências Naturais de Barcelona, do Instituto de Biologia Evolutiva (CSIC-UPF) e do Instituto Max Planck de Ecologia Química, na Alemanha. É a primeira evidência de biofluorescência nessa espécie.

A diferença entre brilhar e refletir luz
Parecem fenômenos semelhantes, mas vale explicá-los. Bioluminescência é quando o animal produz a própria luz por reação química, é o caso do vaga-lume. Biofluorescência, o que acontece com a salamandra-de-fogo, é diferente: o animal absorve luz de um comprimento de onda (no caso, o ultravioleta, invisível para nós) e a reemite em outro, visível. Sem a luz UV incidindo, não há brilho. Uma analogia para esse caso é aquela sua camiseta branca que “acende” na luz negra de uma festa.
O que a equipe encontrou na Salamandra-de-fogo?
Iluminando os animais com luz ultravioleta, os pesquisadores viram a fluorescência azul-esverdeada concentrada na região ventral amarela e nas laterais (imagem acima). Análises mais finas mostraram que o brilho não vem da pele em geral, mas das glândulas granulares e das secreções que elas liberam.
O achado mais interessante, porém, está num lugar inesperado. Usando uma técnica chamada imageamento por tempo de vida de fluorescência, a equipe descobriu que os compostos fluorescentes das glândulas são diferentes dos da pele. Viram também que substâncias fluorescentes também aparecem no sangue do animal.
Isso sugere que esses compostos podem estar sendo transportados pela circulação. Até hoje, esse traço, fluoróforos circulando no sangue, só era conhecido em um grupo: as pererecas brasileiras.
A conexão sul-americana
O primeiro anfíbio fluorescente já documentado não foi europeu, e sim sul-americano: a perereca-de-pontos (Boana punctata), que vive na bacia amazônica, incluindo o Brasil. A fluorescência dela foi descrita em 2017 por uma equipe liderada por pesquisadores argentinos (Taboada, Faivovich e colegas), num trabalho que abriu essa linha de investigação em anfíbios.
Ou seja: o grupo que a nova pesquisa europeia aponta como “o único caso anterior” de compostos fluorescentes no sangue é justamente o das pererecas que habitam as florestas brasileiras. A descoberta na salamandra-de-fogo, longe de ser uma curiosidade distante, reforça uma pergunta que a biodiversidade brasileira pode ajudar a responder: quantos dos nossos anfíbios, ainda pouco estudados, escondem o mesmo fenômeno?
Para que serve esse brilho? Aqui é preciso cautela
Esta é a parte em que vale separar o que foi medido do que ainda é hipótese. Algo que não esperávamos: as secreções fluorescentes mantêm o brilho por mais de 24 horas depois de liberadas sobre uma superfície. Esse dado que, segundo o coautor Dr. Martin Kaltenpoth, faz a fluorescência “cumprir vários critérios que sugerem uma função de comunicação”.

As possibilidades levantadas incluem comunicação entre indivíduos à noite, escolha de parceiros, reforço do sinal de alerta contra predadores (as cores vivas da salamandra já avisam que ela é tóxica) e maior visibilidade no escuro.
Mas os próprios autores são claros: tudo isso ainda é especulação. Não há, por enquanto, experimento mostrando que outra salamandra é capaz de “ler” esse brilho ou mudar seu comportamento por causa dele.
E há um buraco ainda mais claro: ninguém sabe qual é a substância responsável. “Ainda não sabemos qual é o composto por trás dessa fluorescência”, reconhece a equipe. Sem identificar a molécula, é impossível afirmar para que ela evoluiu, ou se evoluiu para alguma coisa, em vez de ser um subproduto bioquímico sem função.
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Por que isso importa além da curiosidade?
A lição mais ampla não é sobre salamandras. É sobre o quanto ainda ignoramos no que achamos que já conhecemos. Uma espécie estudada por 200 anos guardava uma característica muito fácil de ser identificada, bastava apontar a luz certa.
Para a ciência brasileira, com uma das maiores diversidades de anfíbios do planeta e uma fração delas bem estudada, o recado é direto: pode haver muito brilho ainda no escuro.
Transparência científica
Nota Editorial: Este texto foi produzido com o intuito de tornar o conhecimento acessível e combater mitos alimentares. Conteúdo jornalístico adaptado por Paulo Budri.
Fontes
- Burriel-Carranza, B. et al. Glandular biofluorescence in fire salamanders (Salamandra salamandra): first evidence and ecological implications. Royal Society Open Science, 27/05/2026. DOI: 10.1098/rsos.251991
- Instituto Max Planck de Ecologia Química — comunicado oficial sobre o estudo.
- Taboada, C. et al. (2017), sobre fluorescência em Boana punctata — contexto sul-americano.
Originalmente publicada em Ciência de Fato