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Como o colapso dos polinizadores passou a figurar entre as cinco maiores ameaças à segurança alimentar global — e por que o Brasil ainda não acordou para esse risco sistêmico

Como o colapso dos polinizadores passou a figurar entre as cinco maiores ameaças à segurança alimentar global — e por que o Brasil ainda não acordou para esse risco sistêmico
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Quando a abelha Melipona subnitida — conhecida no semiárido nordestino como uruçu amarela — desaparece de uma área de Caatinga, o primeiro sinal não é a ausência do inseto. É o silêncio das flores. Os frutos não se formam. A semente não cai. A paisagem continua verde, por um tempo, mas a cadeia já está partida. Esse mecanismo de ruptura invisível é o que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) tentou traduzir em linguagem de política pública quando, em 2016, publicou a primeira avaliação global sobre polinização. A conclusão era direta: o declínio dos polinizadores integra o conjunto de cinco principais ameaças à segurança alimentar global. Quase uma década depois, a imprensa brasileira ainda trata o assunto como curiosidade da natureza.

A dimensão econômica é o ponto de partida mais honesto. Compilada por 77 especialistas a partir de cerca de 3 mil publicações científicas, a avaliação do IPBES estimou que entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões em produção alimentar anual dependem, em algum grau, da contribuição de polinizadores. Três quartos das principais culturas globais se beneficiam, ao menos parcialmente, desse serviço ecossistêmico. Um estudo publicado em 2025 simulou um colapso hipotético completo de polinizadores e chegou a números que deveriam constar em qualquer análise de risco sistêmico: preços agrícolas 30% mais altos, perda de bem-estar global de US$ 729 bilhões — equivalente a 0,9% do PIB mundial. Não se trata de projeção distante. A deterioração já está em curso.

No Brasil, os números ganham textura própria. Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no país com processo de polinização conhecido, 114 — ou 60% — dependem da visita de polinizadores para se reproduzir. Estão nesse grupo culturas que estruturam a balança comercial do agronegócio e a dieta cotidiana: soja, café, feijão, laranja. O serviço ecossistêmico de polinização foi estimado, em 2018, em R$ 43 bilhões anuais. As abelhas predominam, participando da polinização de 80% das culturas dependentes de polinizadores — e sendo responsáveis exclusivas por 65% delas.

O que ameaça esse sistema é uma confluência de vetores, não um inimigo único. O declínio dos polinizadores se deve principalmente a mudanças no uso do solo, práticas agrícolas intensivas, uso de pesticidas, espécies invasoras, doenças, patógenos e alterações climáticas. Cada um desses fatores age de modo distinto, mas se reforçam mutuamente no território brasileiro. O desmatamento retira habitat e corredor ecológico. A monocultura extensiva reduz a diversidade floral disponível e rompe o calendário alimentar dos insetos. As mudanças climáticas deslocam o período de floração, criando uma dessincronização entre a planta e seu polinizador. E os pesticidas — especialmente os neonicotinoides — atuam de forma sistêmica, sendo absorvidos por toda a estrutura da planta, inclusive o néctar e o pólen.

A questão dos neonicotinoides no Brasil merece atenção analítica específica. Neonicotinoides, organofosforados e lactonas responderam por mais de 80% da toxicidade total aplicada sobre polinizadores, segundo levantamento publicado na revista Science em 2026. O mesmo estudo apontou que a toxicidade dos pesticidas aumentou globalmente entre 2013 e 2019, com o Brasil entre os países de maior relevância no ranking — e que, sem mudanças estruturais, o país não atingirá a meta da ONU de redução de 50% dessa toxicidade até 2030. Há ainda uma camada raramente discutida: 75% de todas as amostras de mel coletadas ao redor do mundo continham pelo menos um neonicotinoide, segundo estudo de 2017 compilado no Atlas dos Agrotóxicos. O mel não é um produto marginal da apicultura brasileira — é vetor de contaminação que revela a extensão da penetração dos pesticidas no ciclo biológico dos polinizadores.

Segundo o próprio IPBES, aproximadamente 16% dos polinizadores vertebrados — como pássaros e morcegos — e 40% dos polinizadores invertebrados — como abelhas e borboletas — estão sob risco de extinção. Uma pesquisa publicada em 2024 identificou a mudança climática como a ameaça mais proeminente entre todas, com os efeitos sobre temperatura, precipitação e distribuição de espécies operando em cascata sobre redes inteiras de interação planta-polinizador. Mas é a combinação de vetores — não um deles isolado — que torna o quadro analiticamente mais grave.

Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale e co-autora da avaliação global do IPBES em 2016, articula com precisão a dimensão humana do problema: a saúde dos polinizadores está diretamente ligada à saúde humana. Não como metáfora ecológica, mas como vínculo material — de nutrição, de renda, de capacidade produtiva das famílias agricultoras. Carlos Joly, professor da Unicamp e coordenador do programa BIOTA-FAPESP, sintetizou o alcance político da questão ao afirmar que é a mensagem econômica — não apenas a biológica — que precisa chegar a quem toma decisões sobre uso de pesticidas e de solo no agronegócio.

O que está em disputa, portanto, não é uma abstração conservacionista. É a arquitetura produtiva de um país que se apresenta ao mundo como potência alimentar. A soja brasileira que abastece cadeias globais, o café que ancora regiões inteiras do Sul e do Cerrado, a laranja que estrutura o agronegócio paulista — todos atravessam, em algum grau, pela mediação silenciosa de um inseto que os formuladores de política tratam como detalhe. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Applied Ecology identificou que entre 28% e 61% dos sistemas de cultivo analisados globalmente estão, de fato, limitados pela oferta de polinizadores. A produção já não está no máximo do seu potencial. Está sendo contida.

A pergunta que a imprensa brasileira evita formular com clareza é esta: quanto do PIB agrícola do país está, hoje, subfinanciado pela extinção silenciosa de um serviço ecossistêmico que jamais aparece no balanço das empresas, nos relatórios de sustentabilidade ESG, nos contratos de seguro rural, nas análises de risco do sistema financeiro? A lógica extrativa que desmata, pulveriza e compacta o solo extrai também, de forma irrecuperável, o capital biológico que torna possível a própria extração. A flor silencia. E ninguém registra o prejuízo.

Fontes: IPBES, “The Assessment Report on Pollinators, Pollination and Food Production” (2016); Brunet & Fragoso, “What are the main reasons for the world-wide decline in pollinator populations?”, CABI Reviews (2024); Vezzani et al., “Global relationships between crop yield and pollinator abundance”, Journal of Applied Ecology (2025); Beyer et al., “Pollinator declines, international trade and global food security”, ScienceDirect (2025); BPBES/REBIPP, “1º Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil” (2019); Agência FAPESP; Atlas dos Agrotóxicos, Mongabay Brasil (2024); estudo sobre toxicidade global de pesticidas, Science (2026).

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Trajano Xavier

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