A farmácia escondida na floresta: o que é zoofarmacognosia

A palavra parece complicada, mas o conceito é direto: zoofarmacognosia é o nome que se dá ao estudo de como animais não humanos usam recursos da natureza para se tratar. Seja engolindo uma folha áspera para expulsar parasitas, seja esfregando uma planta na pele para aliviar dor.

A ciência já documentou comportamentos assim em aves, insetos, répteis e vários mamíferos. Entre os grandes primatas, os chimpanzés são os campeões de registros: engolem folhas inteiras, mastigam caules amargos de Vernonia amygdalina contra parasitas intestinais e, mais recentemente, foram flagrados aplicando insetos em ferimentos. Mas os orangotangos, até pouco tempo atrás, engatinhavam nesse quesito.

O novo estudo de Bornéu dá um salto: ele testa uma hipótese ousada, chamada de Hipótese da Combinação de Recursos Automedicativos (SMRCH, na sigla em inglês). A ideia central é que, quando um animal fica doente, talvez ele não vá atrás de um único item medicinal, mas sim de uma combinação, recursos que, juntos, se complementam ou agem em sinergia.

É o equivalente a tomarmos um antibiótico junto com um anti-inflamatório e um protetor gástrico, em vez de só um deles. Para tentar flagrar esse comportamento, os pesquisadores usaram um banco de mais de 20 mil horas de observação de orangotangos, coletado entre 2003 e 2023 na floresta de turfeira de Sebangau, em Kalimantan Central, Indonésia.

Combinações que não são por acaso: o que os orangotangos de Bornéu adicionam na dieta?

A equipe vasculhou 12.236 eventos de alimentação de 55 orangotangos, registrados ao longo de 2.419 dias. Nesse cardápio imenso, 202 espécies de plantas, entre frutos, folhas, cascas, raízes e flores, eles cruzaram os itens consumidos com o conhecimento etnomedicinal de comunidades Dayak da região.

Depois de entrevistas com dois guias botânicos indígenas que atuam na área há mais de uma década, Hendri Shagara e Iwan Shinyo, os pesquisadores selecionaram 19 recursos de interesse (ROIs, na sigla do estudo): plantas que aparecem tanto na medicina tradicional local quanto na dieta dos orangotangos, e cuja parte consumida pelo animal coincide com a usada pelos humanos (por exemplo, a folha).

A pergunta que veio a seguir foi: esses ROIs aparecem combinados a outras plantas com uma frequência maior do que o acaso explicaria? Para responder, os cientistas aplicaram duas ferramentas estatísticas: a Análise de Colocação Distintiva Múltipla (MDCA) e o algoritmo APRIORI — um velho conhecido da ciência de dados, usado para achar associações em “cestas de compras” (o que, aqui, são as sequências de itens que um orangotango come em um dia ou em uma refeição).

O resultado

Várias combinações surgiram com força estatística, indicando associações não aleatórias. A dupla com a maior atração foi Mezzettia parviflora e Fibraurea tinctoria — um par improvável, com valor pbin de 98,73 (para referência, acima de 1,3 já é considerado significativo). Fibraurea tinctoria, aliás, apareceu em 72% dos 25 principais pares não aleatórios da MDCA e em todas as regras geradas pelo APRIORI sob os critérios adotados (suporte mínimo de 0,01, confiança de 60% e lift maior que 1).

A regra com o maior lift (5,72) indicou que, quando Alyxia spp. e Willughbeia spp. apareciam juntas na dieta, Fibraurea tinctoria estava presente com 62,5% de confiança.

Traduzindo: a Fibraurea tinctoria funciona como uma espécie de “elo” de várias combinações que não parecem obra do acaso. Alyxia spp. tem atividade anti-inflamatória e antimicrobiana documentada.

Willughbeia spp. apresenta efeitos inibidores da acetilcolinesterase, uma ação relevante para processos neurológicos.

Mezzettia parviflora mostrou potencial antioxidante em estudos de laboratório. E Gnetum spp., outro gênero presente nas combinações, também é rico em compostos bioativos. Juntas, essas plantas poderiam oferecer um pacote que combate inflamação, infecção e ainda ajuda na regeneração de tecidos — mas essa sinergia ainda é uma hipótese a ser testada em laboratório.

O curativo verde de Rakus: quando um orangotango de Sumatra trata a própria ferida

Enquanto o estudo de Bornéu analisava padrões de consumo ao longo de duas décadas, uma cena captada em Sumatra em 2024 deixou os biólogos de queixo caído. Um macho de orangotango-de-Sumatra (Pongo abelii) chamado Rakus apareceu com um ferimento no rosto, provavelmente resultado de uma briga com outro macho.

Três dias depois, os pesquisadores observaram algo inédito: Rakus arrancou folhas de uma liana da espécie Fibraurea tinctoria — a mesma que aparece no topo das combinações em Bornéu —, mastigou, e aplicou repetidamente o suco diretamente sobre a ferida. Depois, cobriu o machucado com a massa de folhas mastigadas.

O comportamento não foi um gesto rápido e casual.

Miniatura do vídeo

Rakus passou vários minutos nesse processo, mirando exclusivamente na ferida, sem tocar em outras partes do corpo. Ele repetiu a aplicação mais de uma vez, primeiro com o líquido, depois com o material sólido, até cobrir toda a lesão. Nos dias seguintes, não houve sinal de infecção. Em cinco dias, a ferida já estava fechada.

Os pesquisadores notaram também que Rakus descansou mais do que o habitual enquanto se recuperava — algo que faz sentido, já que o sono estimula a liberação de hormônio do crescimento, a síntese de proteínas e a divisão celular, todos processos que aceleram a cicatrização.

“O comportamento de Rakus pareceu intencional”, descreve Isabelle Laumer, primeira autora do estudo publicado pelo Instituto Max Planck.

“Ele tratou seletivamente a ferida no flange direito, e nenhuma outra parte do corpo, com o suco da planta. O processo inteiro consumiu um tempo considerável.”

Como Rakus não nasceu na área de Suaq Balimbing — ele imigrou depois da puberdade, como costumam fazer os machos de orangotango —, os cientistas levantam a hipótese de que o comportamento possa ter vindo de sua população natal, ou até mesmo ter surgido como uma inovação individual: um toque acidental do sumo na ferida durante a mastigação, seguido de um alívio imediato da dor, e depois a repetição deliberada.

Fibraurea tinctoria: a estrela da história

Conhecida como Akar Kuning, essa liana do Sudeste Asiático é usada na medicina tradicional para tratar malária, dores e inflamações. Análises fitoquímicas identificaram nela furanoditerpenoides e alcaloides protoberberínicos, com destaque para a berberina — um composto de reconhecida ação antimicrobiana, anti-inflamatória, antifúngica e antioxidante. É exatamente o tipo de arsenal que se espera de uma planta capaz de ajudar na limpeza e cicatrização de uma ferida aberta.

O cruzamento entre as duas frentes de pesquisa é sugestivo: a mesma planta que um orangotango de Sumatra esfrega com cuidado sobre um machucado é a que mais aparece nas combinações não aleatórias da dieta dos orangotangos de Bornéu — a mais de 1.500 quilômetros de distância. É claro que estamos falando de dois contextos ecológicos e comportamentais diferentes (ingestão versus aplicação tópica), mas a coincidência reforça a relevância farmacológica da espécie e a ideia de que orangotangos, em lugares distintos e por vias distintas, desenvolveram maneiras de usar esse recurso a seu favor.

O que o estudo ainda não explica: limites e ressalvas dos próprios autores

Os autores de Bornéu são os primeiros a dizer: encontrar uma combinação não aleatória na dieta não equivale a provar automedicação. Os padrões detectados podem ser influenciados pela disponibilidade das plantas no mesmo micro-habitat ou pela sobreposição de épocas de frutificação. O estudo não conseguiu, por exemplo, cruzar os dados de consumo com o estado de saúde de cada orangotango — ou seja, não se sabe se quem consumia aquelas combinações estava de fato doente, com parasitas ou inflamação. Sem essa peça, o que se tem é uma evidência indireta, porém robusta, de que há estrutura na dieta que não se explica pelo acaso.

Além disso, parte das espécies aparece apenas com identificação em nível de gênero, e as propriedades farmacológicas podem variar drasticamente entre espécies de um mesmo gênero. Os pesquisadores tratam esses táxons como candidatos que precisam de validação — com coleta de herbário, análises fitoquímicas e testes de bioatividade. Já o caso de Rakus, embora seja um flagrante impressionante, é uma observação única, e não dá para afirmar que o uso tópico de Fibraurea tinctoria seja uma prática comum entre todos os orangotangos ou que ele tenha surgido por aprendizado social.

Por que isso importa para você — e para a humanidade?

Essas duas histórias se encontram num ponto que vai além do fascínio com a inteligência dos orangotangos. Elas lembram que a farmácia da natureza não é um catálogo de itens isolados — é um jogo de combinações, e a humanidade sempre soube disso. Os sistemas médicos tradicionais, como o das comunidades Dayak, frequentemente misturam plantas em receitas que buscam efeitos complementares. O que os orangotangos parecem fazer, mesmo que por tentativa e erro ou por transmissão cultural incipiente, ecoa essa lógica de “coquetel” que a medicina ocidental também adota.

Os autores do estudo de Bornéu fazem questão de sublinhar a importância de preservar o conhecimento indígena etnobotânico. Sem as entrevistas com Shagara e Shinyo, a lista de ROIs teria sido muito mais pobre. E, sem a floresta de pé, não há orangotangos, não há plantas medicinais e não há a chance de aprender com eles. Como apontam os pesquisadores, “esta pesquisa destaca a importância de preservar o conhecimento indígena para a conservação da biodiversidade e para a pesquisa em saúde global”.

Fica uma imagem para guardar: um orangotango macho, longe de sua terra natal, mastigando folhas com a paciência de quem prepara um remédio. E, do outro lado do mar, gerações de orangotangos montando, dia após dia, pratos que talvez não sejam apenas comida. A fronteira entre alimentação e farmácia, no dossel da floresta, pode ser mais tênue do que a gente imagina.

Fontes

  • Allen, G., Freymann, E., d’Oliveira Coelho, J. et al. Investigating medicinal resource combinations in the Bornean orangutan diet. Scientific Reports 16, 18690 (2026). DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-026-52614-4
  • Max Planck Institute of Animal Behavior. Orangutan treats wound with pain-relieving plant. 2 de maio de 2024.
  • Laumer, I. B. et al. Active self-treatment of a facial wound with a biologically active plant by a male Sumatran orangutan. Scientific Reports 14, 8932 (2024). (citado no estudo de Allen et al. como ref. 7)
  • Freymann, E. et al. Applying collocation and APRIORI analyses to chimpanzee diets: Methods for investigating nonrandom food combinations in primate self‐medication. American Journal of Primatology 86(5), e23603 (2024).

Perguntas frequentes

Orangotango usa planta medicinal para curar ferida?

Sim. Um macho de orangotango-de-Sumatra foi observado mastigando folhas de Fibraurea tinctoria e aplicando o sumo e a pasta verde diretamente sobre um ferimento no rosto — um comportamento de automedicação tópica nunca antes registrado em um animal silvestre.

Como os orangotangos se automedicam?

De duas formas principais já documentadas: pela ingestão de plantas com propriedades medicinais (muitas vezes em combinações específicas, como sugerem os dados de Bornéu) e pela aplicação tópica de material vegetal sobre feridas ou partes do corpo, como no caso do orangotango Rakus em Sumatra.

Qual planta o orangotango usou para tratar ferimento?

A planta usada foi a liana Fibraurea tinctoria, conhecida como Akar Kuning, que contém berberina e outros compostos com ação anti-inflamatória, antimicrobiana e analgésica.

Orangotangos de Bornéu combinam plantas medicinais na dieta?

Sim. Uma análise de 20 anos de dados de alimentação mostrou que certas plantas com propriedades medicinais aparecem juntas na dieta com frequência acima do esperado pelo acaso, sugerindo um possível comportamento de automedicação combinatória.

O que é zoofarmacognosia?

É o ramo da ciência que estuda como animais não humanos utilizam recursos naturais — em especial plantas — para tratar ou prevenir doenças, seja por ingestão, aplicação tópica ou outros modos de uso.

Fibraurea tinctoria tem propriedades medicinais?

Tem. A espécie é usada na medicina tradicional do Sudeste Asiático e contém alcaloides e furanoditerpenoides com atividades antibacterianas, anti-inflamatórias, antifúngicas e antioxidativas comprovadas em laboratório.

Foto: Antonio Friedemann no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.